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Tecnologia Negócios virtuais

Especial: Startups brasileiras estão mudando radicalmente

A tecnologia não está mais apenas em sistemas de estoque ou em aplicativos de entrega: reconhecimento facial e compras autônomas já fazem parte do varejo.

18/05/2021 10h00 Atualizada há 1 semana
Por: Redação Fonte: Redação
Empreendedores Ricardo Fritsche e Eládio Isoppo, da Payface
Empreendedores Ricardo Fritsche e Eládio Isoppo, da Payface

Nunca mais esperar na fila para passar seus produtos no caixa. Assim funciona a Amazon Go, a marca de lojas autônomas da gigante de tecnologia Amazon. Os consumidores colocam produtos de padaria, orgânicos ou refeições prontas em suas sacolas e saem andando – um cadastro prévio no aplicativo da Amazon Go permite descontar a fatura direto do cartão de crédito. Câmeras instaladas na loja são responsáveis pelo reconhecimento dos usuários e das mercadorias, além do escaneamento de QR Codes por meio dos smartphones dos usuários.

Mas não apenas a Amazon está de olho em digitalizar as compras de itens essenciais. As startups atacam setores com grandes tamanhos e oportunidades – e o de supermercados ganhou destaque durante a pandemia de Covid-19.

Apenas no Brasil, o faturamento dos supermercados brasileiros foi de R$ 378 bilhões em 2019, segundo o Ranking Abras/SuperHiper. Os números de 2020 ainda não foram divulgados, mas devem apontar maior ida aos supermercados diante do fechamento de bares e restaurantes durante boa parte do ano.

O Brasil tem 644 startups que atuam com varejo, segundo o Distrito Retailtech Report 2020. Suas soluções servem para desde melhorar processos internos dos estabelecimentos até ajudar consumidores com conveniência de compra ou com ofertas personalizadas.

O InfoMoney ouviu um especialista de inovação para o varejo e alguns fundadores de retailtechs para entender como os últimos meses trouxeram à luz a necessidade de digitalizar um setor de números tão imensos quanto sua tradição.

Do código de barras ao smartphone

Alejandro Padron, cofundador do espaço de inovação para o varejo OasisLab, afirma que a história do setor de supermercados com a tecnologia começou na década de 1950, com os códigos de barras. “Foi a primeira inovação quando falamos em automatizar a frente de caixa. Depois teríamos as maquininhas”, explica.

Uma segunda onda de tecnologia nos supermercados foi a de modernização da administração (backoffice), com sistemas de gestão (ERPs). “A maioria desenvolveu sistemas dentro de casa, porque o varejo tem suas peculiaridades na comparação com indústrias que já adotavam ERPs.”

Para Padron, a terceira onda de tecnologia nos supermercados foi a participação no comércio eletrônico. “A pressão dos consumidores por conveniência recaiu também sobre os supermercados. Aquela discussão antiga sobre ter lojas físicas e virtuais juntas ou separadas acabou: o amadurecimento trouxe a compreensão de que o contato com o cliente deve ser um só, ainda que ele apresente diversos comportamentos de compra.”

Todas essas relações foram impulsionadas nos últimos anos, pelo maior acesso à internet e aos smartphones. Também permitiu que startups pudessem criar soluções de uso mais simples e por custos menores para supermercados de diversos portes.

“A explosão das startups trouxe um novo modelo de tecnologia para as empresas. No lugar de um sistema legado complexo, elas preferem ter um conjunto de startups com diversas soluções. Pode-se fazer um piloto de pouco tempo e investimento mínimo com cada uma delas, e muitas startups apresentam cobrança flexível ao uso e ao resultado. Com isso, atingem inclusive negócios de pequeno porte”, diz Padron.

Esse potencial transformou as retailtechs não apenas em fornecedoras, mas em alvos de aquisição por supermercados. O Grupo Pão de Açúcar adquiriu o empreendimento James Delivery em 2018. A B2W fez um movimento similar em 2020, comprando o serviço de entregas Supermercado Now.

“O varejo como um todo está em um processo de comprar empresas – basta ver os anúncios de empresas como a Magazine Luiza. É natural a consolidação das startups de ponta, seja por aquisição ou por crescimento independente.”

A pandemia ajudou a acelerar o processo de transformação digital dos supermercados, na visão do cofundador do OasisLab. “As pessoas ficaram mais casa e começaram a interagir com recursos digitais. Não precisam mais ponderar se o mercado terá o produto de que precisam naquele momento, por exemplo. A pandemia vai passar, mas parte dessas conveniências vão permanecer como um hábito.”

Compra simples, cliente próximo

Padron diz que as startups costumam trazer dois benefícios aos supermercados quando falamos de tecnologias específicas para apresentação ao consumidor: a simplificação da compra e o aprofundamento da relação com o cliente.

A Payface tem acompanhado a corrida pela digitalização do setor na frente de simplificação da compra. “Os aplicativos não ficaram apenas para delivery, mas entraram dentro dos supermercados”, diz o cofundador Eládio Isoppo.

Isoppo foi executivo em empresas como Softplan e Fast Shop antes de empreender. Juntou-se a Ricardo Fritsche, também empreendedor e especialista em reconhecimento facial, para criar uma solução que reduzisse as filas em estabelecimentos.Criada em 2018, a Payface fornece um aplicativo white label (que pode ser integrado aos apps e marcas dos estabelecimentos) junto de um hardware que permite o pagamento por reconhecimento facial.

O consumidor cadastra sua face e seus dados de pagamento no aplicativo, que depois são checados pela câmera instalada no caixa. A câmera da fintech é ativada apenas quando o usuário manifesta seu interesse por pagar com o escaneamento da face.

Ou seja, os estabelecimentos não a usam para vigilância —mas para identificar o consumidor e acessar os dados de compra registrados no aplicativo. “O reconhecimento permite trazer mais receita, por meio de estratégias de crossell [vender produtos complementares] e upsell [vender produtos mais sofisticados da mesma categoria]”, afirma Isoppo.

O fundador também afirma que a solução poupa 30 segundos em cada compra  – e que cada segundo perdido no checkout custa de 15 a 40 centavos para a varejista. “Esse custo soma gastos com energia, funcionários e metragem. Quanto mais metros quadrados para colocar produtos, maiores são as vendas.”

A Payface atende principalmente farmácias e supermercados, como Drogaria Iguatemi e Angeloni. A fintech cresceu três vezes seu número de usuários cadastrados em 2020, com muitas pessoas evitando contato com dinheiro ou com maquininhas. “Os supermercados viam a tecnologia como um mal necessário. Agora, virou parte da estratégia. Os diretores de tecnologia interagem com os de negócios, e a decisão surge das duas áreas”, diz Isoppo.

Em 2021, a Payface busca crescer 20 vezes em usuários cadastrados. “Estamos fechando parcerias com varejistas de grande porte. As pessoas também estão mais adaptadas ao pagamento por reconhecimento facial”, diz Isoppo. A Payface também lançará uma versão de pagamentos com reconhecimento facial para comércios eletrônicos. O foco estará desta vez em prevenção de fraudes, não em redução de filas. Mas a maior identificação dos compradores é colocada como trunfo para qualquer tipo de varejo.

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